A história de Lúcia Miranda - Parte II

Aqui está bem contada a história dos primeiros tempos da familia Basilio, puxada da memória de Alzira, João Basilio, Alice Maria e Lúcia.
Gilberto SMelo
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A história de Lúcia Miranda - Parte II

Mensagem por Gilberto SMelo »

A CONTADORA DE HISTÓRIAS
Esta é só uma história comum, de uma menina comum. Seu único mérito, se é que o tem, reside no fato de ser uma história real. Eu era uma menina pobre, como muitas neste nosso imenso país. Meu pai, retirante nordestino, no início dos anos trinta do século passado, não encontrando trabalho em São Paulo, acabou vindo para Minas Gerais. Foi trabalhar na Penitenciária que estava sendo construída em Ribeirão das Neves, cidade que faz divisa com Belo Horizonte. Quis o destino que lá encontrasse minha mãe, mineirinha que nascera em Divinópolis, Minas Gerais, e cuja família vivia num dos ranchinhos dos arredores, trabalhando à meia para um fazendeiro da região.

Ele já tinha quase trinta anos, ela apenas dezesseis quando se casaram Mamãe teve 14 filhos porque como para a maioria dos pobres daquela época, a riqueza da família eram os filhos, eles eram quantos “Deus mandava”. No entanto, só seis filhos chegaram à idade adulta. Eu fui a sexta filha, mas como os cinco primeiros foram nascendo e morrendo antes de completar um ano de idade, acabei ficando na posição de mais velha.

Com o fim da construção da penitenciária, meus pais vieram morar em Belo Horizonte, sempre em vilas da periferia. Com o tempo, meu pai conseguiu passar de servente de pedreiro a pedreiro, profissão que exerceria até o fim da vida, não tivesse ele sofrido um acidente de trabalho, uma queda de uma laje, que lhe roubou, para sempre, a firmeza das pernas. Acabou sendo aposentado por invalidez.

Granjeou fama de excelente pedreiro e isto era motivo de orgulho para toda a família. Embora com a saúde debilitada pelas precárias condições de vida, agravadas pelos partos sucessivos, mamãe trabalhava, até altas horas para dar conta de todas as tarefas domésticas. Contratar uma empregada era luxo inacessível.

Papai e mamãe não tinham podido estudar muito, segundo ano em escola rural, mal e mal sabiam ler e escrever. Mas davam grande valor aos estudos e me transmitiram este amor. Em minhas mais antigas lembranças vejo meu pai contando-me as histórias da literatura de cordel lá do seu saudoso nordeste. Minha infância foi povoada por personagens das histórias de Creusa e o Pavão Misterioso, da Luta do Zé Pretinho contra o Cego Aderaldo, A Verdadeira História de Lampião, etc, etc.

Quando me entendi por gente, quase toda noite os vizinhos se reuniam em minha casa, para contar “causos” e os preferidos eram os de assombração. Mamãe preparava uma baciada de biscoito frito e um bule grande de café e, sentados na cozinha, sob a luz bruxuleante da lamparina de querosene, aquelas pessoas simples desfiavam suas histórias. Encantada, quase desapercebida, eu ficava ali ouvindo, sentadinha no banco, morrendo de medo mas sem querer perder uma história, até que, vencida pelo sono, ia para a cama nos braços de meu pai.

O amor pela música deve ter brotado quando ouvia meu pai cantando dolentes e saudosas modinhas que aprendera no seu nordeste e minha mãe também cantando, enquanto desempenhava as tarefas do dia-a-dia. Músicas que guardavam na memória, pois, embora vivêssemos sempre na capital, luz elétrica e rádio, só conquistamos quando eu já tinha quinze anos.

Aos sete anos de idade fui para a escola. Estudar, além de um dever desde cedo incutido, era a mais pura felicidade. Este sentimento permaneceu, mesmo quando nos mudamos para mais longe, onde a escola distava seis quilômetros de casa. Uma légua de caminhada feita a pé, de segunda a sexta, quer chovesse, fizesse frio ou sol escaldante. Faltar à aula só por motivo de doença grave, ou seja, nunca.

Todo início de ano letivo era uma luta até conseguir comprar todo o material escolar (e olha que era quase nada, comparando às listas quilométricas de hoje). Eu ficava torcendo para não ser a última a completar o material, mas não tinha jeito, acho que eu era mesmo a mais pobre. Nestas circunstâncias, comprar algo que não o estritamente exigido, mesmo que fosse um simples livrinho de história, era impossível.

Quando eu estava com uns dez anos, aconteceu um dia particularmente importante em minha vida. Foi quando inauguraram uma biblioteca na minha escola. Que maravilha! Agora eu podia ler à vontade, levar livros para casa, decorar as poesias, ler os contos de fada.
Mas logo surgiu um problema. É que minha sede de leitura era voraz e minha mãe logo percebeu que se me deixasse livre, eu leria o dia todo. E ela, coitada, necessitava demais da minha ajuda nos afazeres domésticos; buscar água na bica, lavar vasilhas, principalmente ajudar a cuidar dos meus irmãos menores.

A solução que minha mãe encontrou tão logo descobriu porque que meus deveres estavam gastando tempo demais, foi proibir-me de ler “sem necessidade”. Só tinha tempo para fazer o “Para Casa”. Terminado este, deveria ir cumprir minhas tarefas domésticas. Foi então que inventei uma saída para burlar sua proibição. Eu levava para casa livros fininhos, de contos de fada e os escondia dentro do caderno. Fazia o dever de casa rapidamente e começava a ler o livro. Quando minha mãe se aproximava, eu simplesmente, virava a página. Não sei se ela percebia o meu truque.

O fato que li todos os livros finos que havia na biblioteca, pelos menos todos os de contos de fadas, à base de um por dia. Sem drama de consciência. Coincidindo com a chegada da biblioteca, a professora da terceira série, Dona Elba, introduziu no currículo uma atividade pela qual logo me apaixonei: uma vez por semana, normalmente no final do último horário, ela reservava um tempo para ler histórias, em capítulos. Amei aqueles momentos. Vivia intensamente as emoções daqueles personagens, aguardava ansiosa o dia da próxima leitura.

A prova do quanto a leitura se tornou vital em minha vida, eu a encontro nos meu mais acalentado sonho de infância. Conforme já disse, a pobreza da família era muito grande, ali só não faltava o essencial. Carne de segunda só uma vez por semana, só um vestidinho de chita para sair, só uma sandália barata para ir a escola ou visitar alguém (no dia -a- dia era vestido de saco tingido sempre de azul e pé no chão), nunca um brinquedo de presente, fosse Natal ou aniversário.

Meu padrinho era também retirante nordestino. Passara por Minas, batizara a filha do conterrâneo e fora embora para São Paulo. Em casa sempre se falava dele, se esperando a sua volta. Eu também sonhava com sua volta, já o via chegando, carregado, melhor diria, sobrecarregado de presentes. Seriam lindas bonecas, outros brinquedos, guloseimas variadas. Seriam vestidos e sapatos bonitos para que eu, finalmente, pudesse me exibir diante das colegas? Nada disto.

Eu sonhava acordada com a volta do meu padrinho trazendo-me, sim, caixas e mais caixas de presentes. Tantas e tão pesadas caixas, que ele não conseguia carregar sem ajuda. Mas dentro daquelas caixas só havia .... livros. Sim por incrível que isto possa parecer, apesar da pobreza e da carência de quase tudo em que vivíamos, nas caixas do meu sonho eu só queria livros, centenas de livros.

Jamais passou pela minha cabeça, como é que meu padrinho ficaria sabendo que eu adorava ler e mais ainda, como arranjaria dinheiro para comprar tanto livro. Afinal, sonho é sonho.

Meu padrinho Messias morreu lá em São Paulo mesmo, nunca mandou-nos, sequer, uma cartinha, talvez porque nem tivesse nosso endereço. Mas eu continuei acalentando aquele sonho no coração durante muitos anos.

Só pude estudar até a quarta série, naquele tempo se dizia, tirar o diploma. Os parcos recursos da família tinham que ser gastos com a segunda e depois as demais filhas na escola. Meus pais me explicaram, estou certa de que com grande pesar, que eu já estudara bastante, estava na hora de trabalhar, ajudar nas despesas. Chorei escondido, mas tive que aceitar a decisão que, ademais, eu considerava justa.

Enterrei meus sonhos de ser professora (era com o que sonhavam a maioria das meninas da primeira metade do século passado) e fui aprender corte e costura. Talvez seja por isto que não saiba costurar até hoje, apesar de ter tirado alguns diplomas desta arte.

Mas meu primeiro dinheiro veio de outra fonte (mais correto seria dizer, de outro córrego). Nesta época já tínhamos nos mudado para a vila que existia onde hoje se situa a Barragem Santa Lúcia e mamãe lavava roupa na casa de mulheres abonadas da Cidade Jardim, do bairro Santo Antônio ou Lourdes.

Consegui um trabalho de lavar roupas em casa, uma vez por semana, recebendo cinco, qualquer que fosse o dinheiro da época (devia equivaler a uns cinco reais de hoje).

Eu já estava com 12 anos e lavar roupa para mim não apresentava dificuldade, afinal eu já estava acostumada a lavar a roupa de toda a família. Além disto, como um córrego passava nos fundos do barraco, eu podia fazer a lavação enquanto tomava conta da casa, dos meus irmãos.

Antes de começar a trabalhar, já manifestei aos meus pais qual era a primeira coisa que queria fazer com aquele dinheiro. E eles, com uma sensibilidade que só hoje posso avaliar, concordaram com o meu desejo. Sequer disseram que, na pobreza em que vivíamos, havia coisas muito mais necessárias.

Foi assim que juntei todo o dinheiro das oito primeiras semanas de trabalho e comprei o livro “Histórias da Avozinha”, que eu já conhecia e sobre cujas histórias já comentara com eles.
Aquele livro era um tesouro. Imagine, quarenta histórias! Nem preciso fechar os olhos para rever com nitidez, aquela cena! Durante noites e noites minha família se reunia para ouvir, embevecida, as histórias que eu, a filha mais velha lia, à luz da lamparina de querosene. Primeiro li todas, duas ou três a cada noite. Depois fui relendo, de acordo com as escolhas de cada um. Clássicos da literatura infantil, histórias fantásticas, maravilhosas. Reis, princesas, diabos, anões, assombrações, etc., passaram a povoar a nossa mente, a nos fazer voar nas asas da fantasia, ultrapassando os limites estreitos daquele barracão humilde de terra batida e sem reboco.

Mas eu queria ler mais. Aconteceu que mamãe passou a me dar a tarefa semanal de ir ao Mercado Central fazer umas comprinhas. Um repolho, uma abóbora, umas cebolas, bananas bem maduras, o que encontrava de mais barato, limitado ao pouco dinheiro que trazia.

Não tardei a descobrir que em meu caminho havia uma lojinha que vendia e comprava revistas usadas. Foi um achado. Revista era coisa quase desconhecida para mim. Logo me encantei, principalmente com as de amor: Capricho, Grande Hotel, Querida, fotonovelas, contos, seriados, aventura, romance, maravilha!

Comprei a primeira revista, li de um fôlego só. Na semana seguinte comprei outra. Na terceira, troquei as duas por uma terceira. Durante os anos seguintes, enquanto existiu aquela loja eu fui freqüentadora assídua, numa semana comprando, noutra trocando. Trazia as revistas escondidas no fundo do balainho, guardava-as debaixo do colchão, aguardando o momento propício para saboreá-las.

Quando mamãe perguntava onde eu estava conseguindo aquelas revistas, dizia que tal amiga as emprestara. Sim, porque não tive coragem de confessar aquele novo “delito”, contar que estava gastando o seu suado dinheirinho em uma coisa considerada não essencial à subsistência da família. Sabia que seria repreendida e que teria que por fim ao meu novo encantamento.

Sim, porque agora aí já não era só o prazer de ler. Aquelas revistas me abriram um novo manancial de emoções, proporcionando-me a descoberta do romantismo, naquelas ingênuas histórias de amor escritas nos anos cinqüenta. Hoje, com a TV mostrando romance (e sexo) às crianças desde a mais tenra idade, isto pode parecer sem importância.

Mas naquele tempo era diferente e eu preservava ciosamente minha nova fonte de sentimentos. Motivo pelo qual eu não compartilhava aquelas leituras com ninguém.

Aos treze anos, sai de casa para trabalhar como doméstica em um pensionato dirigido por freiras. As pensionistas eram filhas de fazendeiros, que vinham estudar na capital. Algumas delas, mais generosas, logo descobriram minha paixão pelos livros e me emprestaram os primeiros romances de minha vida.

Eu trabalhava de seis da manhã até quase oito da noite e ainda encontrava energia para devorar os livros. Fiquei lá por dois anos e li e reli quase toda noite.

Mas foi aos quinze anos, quando comecei a trabalhar no centro da cidade é que descobri e pude freqüentar a Biblioteca Pública localizada na Rua da Bahia com Av. Augusto de Lima. Fiz logo minha ficha e me tornei leitora voraz. Pegava dois livros de cada vez e três dias depois já estava devolvendo e pegando mais dois. Isto trabalhando oito horas por dia e morando longe. Andava lendo pela rua, lia no horário de almoço, ficava acordada lendo até duas da manhã. Foram vários anos de visita à Biblioteca, pelo menos duas vezes por semana. Comecei lendo a coleção toda da Biblioteca das Moças e fui evoluindo até autores de mais peso, passei pelos mais variados gêneros.

Mas finalmente, quando já tinha completado vinte e cinco anos, depois de quatorze sem estudar, surgiu a chance de voltar aos bancos escolares e realizar meu velho sonho. Matriculei-me no Curso que me permitiria fazer os exames de Madureza, o Supletivo da época. Meu sonho era modesto. Pretendia apenas terminar o primeiro grau. Por esta época eu trabalhava no comércio e queria prestar um concurso público para conseguir um emprego melhor.

Em um ano completei o primeiro grau, no ano seguinte o segundo e ai já tinha percebido que não dava para parar. Melhor dizendo, eu não queria parar. Ao final daquele segundo ano, desde que voltara a estudar, me inscrevi no vestibular da Faculdade de Direito da UFMG. A bem da verdade, não me foi dado escolher o curso. Fiz o único que reunia duas qualidades de fundamental importância para mim: era gratuito e noturno. Eu tinha que continuar a trabalhar e já era arrimo de família. Não poderia estudar se tivesse que pagar a faculdade. Mas adorei o curso.

O vestibular que prestei, em 1968, foi o último só de questões só abertas, com prova oral e escrita. No ano seguinte já passou a ser de múltipla escolha. E eu tive a suprema felicidade de ser aprovada. Creio que não havia naquela faculdade uma pessoa tão feliz, tão realizada, pelo simples fato de ter conseguido chegar até ali.

E foi então que pude avaliar o que a leitura significou em minha vida, o quanto ela abriu meus horizontes. Estou certa de que foi, principalmente graças a ela, que consegui, depois de tanto tempo, vencer tão celeremente as etapas do Madureza e chegar a Universidade. Nos anos seguintes esta conclusão se tornou certeza, quando percebi que conseguia caminhar em igualdade, ou até em melhores condições que alunos oriundos dos melhores colégios.

Hoje estou aposentada e continuo amando os livros. Com três filhos e duas netas, sou uma pessoa muito feliz, de bem com a vida e com uma enorme vontade de espalhar felicidade e alegria ao meu redor, sempre envolvida em movimentos que lutam por um mundo melhor.

Criei e coordeno um grupo de seresta que tem por lema “Alegrar-se levando alegria aos outros”. E me tornei uma Contadora de Histórias. Contadora voluntária, conto nas Bibliotecas, em Escolas, em Grupos de terceira idade. E até tenho me atrevido a ministrar Oficinas, visando divulgar tal atividade e promover cada vez mais, o surgimento de novos contadores.

Maria Lucia Miranda, 05/2005


VOVÓ MARIA
Não tive ao privilégio de conhecer meus avós paternos. Meu pai, retirante nordestino, veio para o sul ainda jovem, solteiro e nunca mais voltou lá. Quando, anos depois de sua morte, pude ir lá conhecer os parentes, meus avós já haviam falecido.

Meu avó materno morreu antes que eu nascesse. Assim, só conheci minha avó materna, vovó Maria. A imagem que guardo dela é de uma pessoa serena, austera, discreta, muito asseada, os cabelos presos num severo coque. Embora tenha convivido com ela na mesma casa, nunca me lembro de vê-la dando uma gargalhada, ou falando alto. Mesmo quando nos repreendia era num tom comedido. Também não era de falar dos seus sentimentos e nunca me lembro de ter recebido dela um abraço. O que não me impedia de sentir seu imenso amor e carinho.

Sua infância, embora dela pouco se saiba, deve ter sido a mesma das crianças muito pobres, que viviam no meio rural no final do século dezenove. Sem terra, vivendo com a família que ia de fazenda em fazenda plantando para dividir com o dono da terra, morando em ranchinhos no meio do mato, começando desde cedo a ajudar os pais na dura lida diária.

Ao que me conste, meus tios pouco ouviram sobre a vida que seus pais tiveram, nem mesmo sabem muito bem onde nasceram. Parecem ter ouvido dizer que vovô veio de Caratinga, Minas Gerais. Após se casar com meu avô, Getúlio Basílio, um vendedor ambulante que se encantou por ela, a família morou em Divinópolis, onde nasceu minha mãe depois nas cercanias de Ribeirão das Neves, na região onde foi construída a Penitenciária e onde meu pai conheceu e se casou com minha mãe. Casa cheia de filhos, vovó trabalhava arduamente para ajudar a sustentá-los.

Um dia, depois de mamãe já casada e residindo em Belo Horizonte, resolveram mudar-se para cá Afinal, meio tio João Basilio já estava rapaz e precisava trabalhar e eles queriam tentar um futuro melhor para todos.
Meu avó Getúlio Basílio era muito trabalhador, mas só sabia plantar e colher. Para tentar sobreviver na cidade grande, fazia “biscates”. E foi assim que pegou a tarefa de cavar uma cisterna no bairro que hoje se chama Sagrada Família, mas naquela época era Vila Maria Brasilina.

Naquele dia, parou para almoçar a comida de marmita e entrou de novo na cisterna para adiantar o trabalho. Passou mal, foi levado para casa às pressas e morreu no mesmo dia. .

Minha avó enfrentou muitas dificuldades, pobreza, mortes de filhos, mas tinha confiança inabalável em Deus. A prova disto é que seu filho João, meu tio querido, que compôs várias músicas, tem uma que diz assim : “Ai, ai, ai / Não tinha dinheiro nem pra namorar/ Minha mãe dizia, _ ocê pode esperar/ pois Deus já deu muito e tem muito pra dar.”

Embora nunca tenha aprendido a costurar nem a usar uma fita métrica, vovó costurava para fora. Pedia à freguesa uma roupa que estivesse de bom tamanho, colocava por cima do tecido e cortava. Raramente necessitava de ajuste. Cobrava pouco, mas era um dinheirinho que ajudava nas despesas .

Durante os duros anos de vida no Taquaril, eu e minhas irmãs, tínhamos como único presente de Natal, um vestidinho que ela fazia para cada uma. Comprava retalhos de tecidos, em tiras de cores variadas (todas claras) e emendava. Naquele tempo em que só tínhamos um vestidinho para sair, vestido novo, ainda que de retalhos, era uma festa. Marcou-me muito o fato de que, no último Natal antes de mudarmos para mais longe, ela não teve dinheiro para comprar o tal tecido. Comprou, então, para cada uma das netas, uma bacciinha de alumínio, pequenina, que imediatamente passamos a utilizar como prato na hora das refeições.

Como eu disse, após a morte do meu avô e o casamento de seu amado filho João, minha avó foi viver com a família dele. A nora Alice, que o filho fora garimpar lá em Divinópolis, era para ela mais uma filha muito querida e tenho certeza de que o amor era recíproco, pelos mútuos cuidados de que fui testemunha.

Vovó estava sempre disponível para ajudar qualquer filho que precisasse. Nas vezes em que mamãe precisou ficar hospitalizada, ela sempre ia ficar conosco, tomar conta da casa e dos netos.

Um fato acontecido numa destas vezes, foi especialmente marcante para mim e minhas irmãs. À época, morávamos na Cerâmica Santa Maria,, nome do lugar que veio a se tornar a barragem Santa Lucia. Minha mãe, enquanto não saia para lavar roupa na casa dos outros, costumava fazer biscoito frito que eu, Dalva e Cleusa, íamos vender para os pedreiros que trabalhavam num bairro vizinho. Eu tinha uns doze anos de idade. Era dinheirinho para um pão, um caderno, uma verdura e outras miudezas.O balainho voltava sempre vazio, compravam todos.

Mamãe adoeceu e vovó foi tomar conta de nós. Sabedora das vendas, querendo que não perdêssemos os fregueses, ela fez os biscoitos, mas não sei porque eles não gostaram, o balaio voltou quase cheio. Muito pior que não ter trazido dinheiro, foi nossa preocupação com os sentimentos de minha avó, o medo que ela se sentisse humilhada por não terem gostado dos biscoitos dela. Nós a amávamos muito.

Os últimos anos de vida, vovó passou morando com minha tia Alzira, sempre procurando ajudar, sempre nos amando a todos com seu imenso e discreto amor. Morreu tão discretamente como viveu. Na época eu devia ter uns dezessete anos.

SOU GULOSA MESMO!
Sempre achei ridículas as mulheres, sobretudo as mães de filhos pequenos, que se vangloriam dizendo: “não como nada sem repartir com meus filhos, nem que seja um pedacinho para cada um’. Eu nunca tive estas frescuras. Se a guloseima era pouca, comia tudo e eles nem ficavam sabendo. E ainda aliviava a consciência concluindo: “ora, eles ainda vão ter muito mais tempo que eu para comer coisas gostosas”.

É, tenho que reconhecer que sou gulosa e não é de hoje. Da minha primeira infância guardo um episódio que já demonstrava isto. Morávamos na antiga Colônia Afonso Pena, hoje bairro Coração de Jesus. Todo domingo pela manhã papai ia religiosamente ao Mercado Central a pé, que nem ônibus havia, fazer as comprinhas de frutas e legumes para a semana. Deviam ser compras bem modestas e hoje percebo que aquela ida ao mercado era o lazer dominical de meu pai, oportunidade para bater um papo, fazer e cultivar amigos. Lembro-me com nitidez que mamãe sempre guardava os tomates, compra obrigatória, em um caldeirãozinho que colocava na tábua mais baixa da prateleira de madeira que ficava na cozinha. Certo dia, eu devia ter uns 4 ou 5 anos, depois do almoço, resolvi comer uns tomates sem pedir a mamãe, mesmo porque ela talvez não os desse. Sem que ela percebesse, fui pegando um por vez, até comer quase todos. Não me lembro quantos comi, só sei que parei quando não cabia mais. Quando comecei a passar mal, mamãe certamente não teve nenhuma dificuldade para descobrir o que ocorrera. Bastou olhar o que eu “devolvia” e ver o caldeirão de tomates, quase ou totalmente vazio.

Doutra feita, já na fase dos meus seis ou sete anos, transitávamos eu e mamãe pela Avenida Afonso Pena, quando, em frente à Prefeitura, encontramos uma amiga de minha mãe que ela não via há tempos. Referida amiga trazia um balaio com frutas e legumes que comprara no Mercado Central. Conversa vai, conversa vem, vislumbrei no balaio uma penca de bananas bem madurinhas. Sem a menor sutileza, interrompi a conversa e falei com minha mãe que queria banana. Ela disse que iria comprar para mim assim que chegasse me casa, típica resposta “engambela menina” (hoje a palavra engambelar virou, não sei por qual motivo, engalobar). Mas eu, que não era nada boba, repeti que queria banana agora, porque estava com fome. Comecei a chorar e a amiga de mamãe viu-se constrangida a dizer que iria me dar umas bananas. Mamãe entendeu o que estava acontecendo e coitada, delicada como era, educadamente agradeceu e recusou e me mandou esperar chegar em casa. Intensifiquei o choro e acabei ganhando umas duas bananas, sob as vistas de mamãe, constrangida, morta de vergonha. Não me lembro se ganhei um “sermão”, ou se apanhei ao chegar em casa, só sei que devorei as bananas sem o menor peso na consciência.

Outro momento de gulodice que ficou em minha memória ocorreu quando eu tinha uns 10 anos de idade. Todos os dias quando se despedia de mim para eu seguir para a escola, meu pai me dava uma moedinha, que devia valer uns 0,30 centavos, para eu comprasse algo para comer quando voltasse da escola, pois tinha que caminhar 6 quilômetros até chegar em casa para almoçar. Já naquela época eu tinha certeza de que era um grande sacrifício para ele dar-me aquela moeda, tirado do seu magro salário de pedreiro, com o qual tinha que sustentar uma família de nove pessoas. Eu me sentia muito privilegiada, muito importante por receber aquele dinheiro. Às vezes acontecia de eu guardar o dinheiro para comprar algo no caminho de volta. No dia ao qual me reporto, voltava com minha moeda, quando encontrei alguém vendendo um grande araticum e verifiquei que custava a minha moeda. O vendedor partiu a fruta para mim e eu comecei a comer. Logo vi que era grande demais para o meu estômago, mas também não dava para levar para casa. Quanto à hipótese de jogar fora ou dar para alguém, nem pensar. Mesmo porque meu caminho era deserto. Me entupi de araticum e já cheguei em casa passando mal. Até hoje, não posso sentir o cheiro do araticum sem sentir repugnância.

Já na faixa dos 12 anos de idade ocorreu outro fato que ficou na memória. Mamãe me deu uns trocadinhos para eu ir ao Mercado Central comprar umas coisinhas. Uma penca de banana, um repolho, umas cebolas, alguns tomates. Estiquei o dinheiro e comprei um abacaxi, destes muito maduros, que estava baratinho. Mas já comprei planejando come-lo sozinha. Escondi-o debaixo das demais compras e ao chegar em casa peguei o dito cujo e fui me esconder na “casinha”, ou privada, localizada nos fundos do terreno. Lá estava eu bem satisfeita, saboreando meu abacaxi, indiferente ao mau cheiro da fossa, quando mamãe começou a procurar pela faca. É que só havia uma faca em casa e mamãe precisava dela para preparar o almoço. Ninguém dava notícia da faca muito menos de mim. Daí a pouco saio eu da “casinha” muito lampeira, a faca na mão, cara toda lambuzada de caldo de abacaxi. Não me lembro, mas devo ter levado uma bronca daquelas.

Quero finalizar falando da minha paixão por mangas. Principalmente sapatinha, a primeira que experimentei, pois havia um grande e frondoso pé no quintal da casa onde me entendi por gente. Mas se não tiver a sapatinha, vai qualquer outra, até mesmo estas que são tipo exportação e têm gosto de abóbora. Diante de um cesto de mangas amadurecidas no pé, perco as estribeiras, perco a compostura. Só paro quando já não cabe mais nada no estômago. Paro só um pouco, mas se sobrar alguma, dali a umas duas horas lá estou eu de novo.

Isto para falar só em frutas. Para doces até que não dou bola. Mas não venham tentar-me com um pão de queijo quentinho, uma lasanha caseira, etc, adeus dieta. Mamãe dizia amiude: _ “êta menina esgubilada!” Tenho que reconhecer: _ “Sou gulosa mesmo”.

SERIA O PRIMEIRO EMPREGO
Foi com a amiga de uma das senhoras para quem lavava roupa lá no Bairro Santo Antônio, que conseguiu um trabalhinho para mim. Mamãe comentou que eu tirara o diploma de corte e costura e precisava adquirir prática. A madame era modista, como se dizia naquela época e precisava de uma ajudante. Eu tinha doze anos e muita vontade de trabalhar. Comecei muito feliz, ia logo após o almoço e ficava até a noitinha, tinha café á tarde, ganhava umas moedas, tudo ótimo. Desmanchava as costura segundo era orientada (a patroa fazia muita reforma e conserto em roupas), varria o chão, recolhia os alfinetes, etc.

Devo ter ido umas seis vezes, até o dia em que ela, já mais confiante, me entregou a tarefa de tirar a ponta de uma saia de godê duplo. As saias de godê duplo, para quem não sabe, tinham uns três metros de rodo e, invariavelmente, davam pontas, que tinham que ser cortadas. A madame explicou-me pacientemente como fazer. Devia medir com a fita métrica a partir da cintura, e ir marcando com alfinete, sempre a mesma altura até a bainha, para só então cortar. Significava marcar umas 30 ou mais vezes, marcação que deveria durar mais de uma hora. Comecei animada, fui marcando, marcando, comecei a sentir cansaço, talvez sono, sei lá. O que sei é que, a certa altura decidi que poderia cortar sem medir e não pensei duas vezes. Comecei a cortar o que já estava marcado e fui enfiando a tesoura na saia na base do olhômetro. Nem uma vez a patroa veio ver o que eu estava fazendo, numa atitude, não sei se de confiança, se de imprudência. Ou talvez ela não pensasse que eu fosse capaz de não cumprir sua ordem. Entreguei-lhe o trabalho pronto, ela guardou e eu fui embora.

Ao final do dia seguinte ela me falou que iria fazer uma viagem, não sabia por quantos dias. Mas eu poderia ficar tranqüila, ela me avisaria tão logo chegasse. Esperei, esperei e nada. Até que um dia, passados uns três meses, caminhando pelo centro da cidade, dou de cara com ela na Avenida Amazonas, esquina com Curitiba. Cumprimentei-a feliz e perguntei se eu já poderia ir trabalhar no dia seguinte. Ela explicou que acabara de voltar e que ainda não estava costurando, mas que eu poderia ficar tranqüila que ela me avisaria. Estou esperando até hoje. Quando contei este caso para minha amiga Rosana, ela viu grande delicadeza nesta forma de agir da madame, cujo nome não me lembro mais.

Mas o que me causa espanto e me faz duvidar da inteligência que alguns me atribuem, é o fato de que só uns 30 anos depois é que fui relacionar a perda do meu primeiro e único trabalho como costureira, à minha falta de competência para tirar pontas em saia de godê duplo.

PRIMEIRO EMPREGO
Aos treze anos de idade, eu estava louca para trabalhar. Desiludida com a carreira de costureira, fiquei feliz quando uma das assistentes sociais que volta e meia apareciam na Cerâmica falou com meu pais sobre um emprego no pensionato Ela disse ser um lugar de respeito, onde eu teria que ficar durante toda a semana, só vindo em casa aos domingos. Mamãe foi comigo para obter mais detalhes. Tratava-se de um local administrado por uma congregação religiosa de irmãs holandesas que não usavam hábito. Uma casa antiga, de dois andares e porão (onde moravam as empregadas), localizada no bairro Cruzeiro, na Av. do Contorno, 5.531, esquina com Rua Piumhy. Chamava-se Casa das Estudantes e sua clientela majoritária era de jovens filhas de fazendeiros ou de pessoas abonadas que moravam no interior, que vinham fazer faculdade na capital. Eram de 20 a 30 jovens que lá se hospedavam e só iam em casa nas férias.

Entendimentos feitos, decidiu-se que eu iria trabalhar na função de copeira, sendo que havia lá uma cozinheira e uma arrumadeira. Juntei meus trapinhos, comprei a minha primeira bolsa num bazar de objetos usados e lá fui eu para o trabalho.

Logo me integrei na rotina. Eu acordava com despertador tocando às 5:45 da manhã e à 6:00 já estava na cozinha. Punha o leite para ferver, a água para fazer o café e ia pegar o pão que o padeiro deixava no portão. Quando às 6:30 chegavam as que tomavam o café mais cedo, tudo estava preparado para servi-las. Mesa posta, leite fervido, café coado, pão fatiado, manteiga. Quando terminava o horário do café, eu recolhia o resto da louça usada, levava para a cozinha, lavava e guardava tudo, A seguir, limpava as mesas, varria e passava enceradeira no salão de refeições. Ia então ajudar a cozinheira com o almoço, descascando e picando legumes, preparando a sobremesa.

Daí a pouco chegava a hora do almoço e eu voltava a por a mesa e repetia a rotina: leva travessa cheia, traz vazia, tira pratos e talheres usados, leva limpos, etc., etc., até lá pelas 13h30. Aí eu recolhia as travessas e o resto das vasilhas usadas e, enquanto a cozinheira lavava, eu secava e guardava tudo.

Terminada esta parte varrida a copa, a cozinheira ia descansar e eu tinha que preparar o café da tarde. Quando terminava de servir e lavar as vasilhas já era quase 16:00 horas e ai era a minha hora de descanso. Nesta hora eu tomava banho, lavava a minha roupa e costumava sair para dar uma volta pelo bairro. Às 17:45 eu voltava para ajudar a cozinheira que preparava a sopa que era servida por mim à noite. Sopa servida, vasilhas lavadas e guardadas, manteigueirinhas cheias para o dia seguinte, terminava o meu dia de trabalho, lá pelas 19:30h.

Embora algumas pensionistas fossem arrogantes, não dando bola para mim, outras, no entanto, eram bondosas, acho que ficavam penalizadas com minha magreza e com o tanto que eu trabalhava. Estas me chamavam para ouvir música no rádio de seu quarto, me emprestavam livros, conversavam comigo, corrigiam meu português. Havia até uma, mais velha que as demais, de nome Maria José, fisionomia triste, parecendo muito solitária, que me convidava para sair com ela à noite. Pagava minha passagem, íamos ao centro da cidade, caminhávamos pelas ruas e às 22:00h estávamos de volta. Foi graças à sua generosidade que entrei pela primeira vez num cinema. Foi no cine Pathé, para assistir Anastácia, a Princesa Esquecida. Fiquei deslumbrada.

Depois de dois meses esta rotina foi alterada. A arrumadeira pediu as contas e a maior parte de sua tarefa foi passada para mim, que tive que correr mais ainda. Entre o café e o almoço, eu tinha que varrer e espanar os quartos, fazer as camas, lavar os banheiros e, uma vez por semana, encerrar tudo, inclusive a grande capela onde aos domingos eram celebradas missas.

Minha folga era uma tarde de Domingo a cada quinze dias, pois ora eu, ora a cozinheira tinha que ficar para preparar o lanche da tarde. Eu saia depois do almoço, lá pelas 14:00h e tinha que estar de volta segunda bem cedinho.

Entrei para lá em outubro e naquele Natal ganhei presente: uma combinação de jersey, uma lata de talco, um sabonete. Me senti super feliz. Naquele Natal, também comprei presentes para minhas irmãs: um brochinho de metal pintado, no formato de bailarina, que não devia custar mais que um real cada. Mas elas gostaram tanto que se recordam até hoje. Passei a ganhar, também roupas e calçados usados das moradoras o pensionato. Eu trabalhava muito, mais não me queixava. Como, também, não me queixava do salário de miséria que ganhava. Comecei ganhando Cr$ 400,00 e, com o aumento das tarefas, fui aumentada para Cr$ 600,00. Isto numa época em que o salário mínimo era de Cr$ 3.300,00 e menores ganhavam a metade, Cr$ 1.650,00. Ou seja, eu ganhava menos de 20% do salário mínimo. Muito tempo depois é que a empregada doméstica passou a ter alguns direitos trabalhistas.

Eu sempre dava um pouco do que ganhava para ajudar nas despesas. Mamãe que não podia mais sair para lavar roupa, pois não havia mais quem tomasse conta dos pequenos, começou a pressionar para eu saísse de lá a procurasse um emprego melhor onde trabalhasse menos e ganhasse mais.

Mas eu, acomodada, comendo muito bem, engordando como uma porquinha, não desejava mudar de emprego. Mas minha mãe foi inflexível. Insistiu que eu “não tinha estudado, tirado diploma”, para trabalhar como doméstica. Naqueles tempos, metade do século passado, para os mais pobres, ter diploma do quarto ano primário era privilégio de poucos. Quando viu que eu estava de corpo mole, foi lá, falou que eu ia sair de qualquer jeito e me levou embora quase arrastada. Sai chorando mais depois agradeci a minha mãe, pois se dependesse de mim permaneceria lá por muito tempo ainda. Certamente teria chegado aos cem quilos. E ainda dizem que aos 15 anos a gente sabe tomar decisões na vida.

PRIMEIRO DINHEIRO
O dinheiro sempre foi pouco em nossa casa, só dava para o estritamente essencial. Aos doze anos, Mamãe lavava roupa pra fora e eu tomava conta da casa e de meus irmãos, fazia comida, mandava as maiores para a escola. Por isto fiquei muito feliz quanto minha tia Maria me propôs um modo de ganhar um dinheirinho, lavando roupa.

Eu ia à casa dela toda semana, pegava uma trouxa de roupa e levava para lavar em casa. Junto com a roupa, iam uns dois tabletes de sabão que ajudavam a lavar também a nossa roupa. Eu lavava a roupa rapidamente e levava de volta (sem passar, porque o ferro de passar era de brasa, muito pesado para mim), ganhando uma nota de cinco, qualquer que fosse o dinheiro da época. Creio que valia mais ou menos o que valem os cinco reais de hoje.

Já naquela época, eu tinha a certeza de que era uma forma que ela via de ajudar a gente, pois ela poderia conseguir lavadeira mais experiente perto de casa. Lavei roupa para ela até ir para o pensionato e não me lembro do que fazia com o dinheiro. Na certa dava para mamãe para ajudar nas despesas. Só me recordo que os primeiros recebimentos, fiz questão absoluta de destinar a uma determinada finalidade: comprar um livro que eu lera na escola e que me encantara. Era “Histórias da Avozinha”, um livro com mais de 40 estórias de contos de fada dos mais variados. Meus pais não fizeram nenhuma objeção, creio mesmo que aplaudiram a idéia. E assim, durante muitas noites, nós nos reuníamos à luz da lamparina, eu lendo e relendo, meus pais e irmãos ouvindo, encantados, as estórias de fadas, reis, príncipes, assombrações, etc. Apesar de todas as dificuldades, a gente a gente era bem feliz.